Estudo busca esclarecer desaparecimento das onças-pintadas em SC reunindo últimos vestígios catalogados; FOTOS
12/02/2026
(Foto: Reprodução) Pesquisadores reúnem fotos da onça-pintada para entender distribuição do animal em SC
🐆🔍 Quando pensamos na onça-pintada no Brasil, geralmente vem à mente regiões como Pantanal e Amazônia. Porém, o maior felino das Américas já teve uma distribuição significativa na Mata Atlântica em Santa Catarina.
Dois pesquisadores reuniram e analisaram 16 registros fotográficos históricos da espécie em território catarinense e conseguiram traçar um quadro da presença do animal no estado, a maioria nas regiões Oeste, Norte e Vale do Itajaí.
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As informações reunidas pelo estudo sugerem que a onça-pintada teve larga distribuição em Santa Catarina. Porém, a estimativa da área de ocupação da espécie de forma precisa é difícil.
O estudo foi publicado no periódico internacional de biologia Journal of Threatened Taxa (algo como Periódico das Espécies Ameaçadas). A onça-pintada tem o nome científico Panthera onca.
Atualmente, o Instituto do Meio Ambiente de Santa Catarina (IMA) estima que há menos de 50 indivíduos adultos da espécie em vida livre no estado, sendo o último registro há mais de 40 anos.
Nesta reportagem, você vai encontrar:
Por onde andavam as onças-pintadas em Santa Catarina?
Por que a população de onças-pintadas diminuiu em Santa Catarina?
Não tem mais onça-pintada em Santa Catarina?
Como é o maior felino das Américas
Homens com onça-pintada em Achieta, no Oeste de SC, em 1960
Reprodução/Família Piccoli
Por onde andavam as onças-pintadas em Santa Catarina?
As fotos analisadas pelos pesquisadores, geralmente do animal morto ou capturado, são de jornais, museus ou particulares. No total, foram 16 registros fotográficos:
1866 – Joinville, no Norte
1905 – Corupá, no Norte
1916 – Blumenau, no Vale do Itajaí
1930 – Itapiranga, no Oeste
1938 – Fraiburgo, no Oeste
1944 – Taió, no Vale do Itajaí
1952 – Sul Brasil, no Oeste
1953 – Blumenau
1954 – Guaraciaba, no Vale do Itajaí
1955 – Paraíso, no Oeste
1960 – Anchieta, no Oeste
1960 – Itapiranga
1960 – Cunha Porã, no Oeste
1970 – Joinville
1972 – Urubici, na Serra
1984 – Campo Erê, no Oeste
O estudo foi feito por Pedro Henrique Amancio Padilha, estudante de medicina veterinária da Universidade da Sociedade Educacional de Santa Catarina (UniSociesc) unidade Joinville, e pelo professor e biólogo Jackson Fábio Preuss, pesquisador da Universidade do Oeste de Santa Catarina (Unoesc).
Segundo Padilha, a pesquisa nasceu da inquietação diante da ausência de informações sistematizadas sobre a onça-pintada em Santa Catarina.
“Sempre me intrigou muito saber por que ela desapareceu, apesar de a gente ainda ter vastas extensões de mata nativa no estado. Quando eu comecei a procurar, percebi que praticamente não existia material sobre Santa Catarina, enquanto outras regiões do país eram muito mais documentadas”, declarou o pesquisador.
Foi feita uma seleção rigorosa dos registros que serviram como base para o trabalho.
“Nosso principal critério foi que todos os registros precisavam estar acompanhados de fotografia, fosse de abate ou de captura viva. A gente excluiu relatos orais, espécimes de museu e imagens com qualquer dúvida sobre a localidade exata”, disse Padilha.
Fotografias cuja origem poderia ser confundida entre Santa Catarina e estados vizinhos também ficaram de fora. Ele espera que o trabalho sirva de base para outros estudos e políticas de conservação em Santa Catarina.
Os principais obstáculos encontrados pela equipe para fazer um mapa preciso das áreas habitadas pela onça-pintada no estado catarinense foram:
falta de documentação histórica consistente;
informação sobre a presença da espécie está dispersa em documentos não organizados, relatos orais e registros em jornais;
lacunas e inconsistências na documentação;
o fato de a onça ser uma animal solitário em um território grande.
Infográfico mostra locais com registros de onças-pintadas em Santa Catarina
Ben Ami Scopinho/NSC
Por que a população de onças-pintadas diminuiu em Santa Catarina?
O estudo mostrou uma triste realidade sobre a diminuição da população de onças-pintadas no estado. Os principais fatores foram:
caça predatória, de retaliação e esportiva, para mostrar o animal como um troféu;
perda de habitat;
perseguição por medo do animal, apesar de ataques de onças a humanos serem raros;
declínio da população de presas para a onça.
Nas fotos, a predominância de onças caçadas sugere que esse foi um fator central para o declínio da população da espécie em Santa Catarina. Do total de registros, 13 correspondem a animais abatidos e apenas três a indivíduos capturados vivos.
A perda de habitat também é considerada, já que isso forçou as onças para áreas de habitação humana. Nesses locais, elas foram abatidas por fazendeiros em retaliação por ataques aos animais criados nessas propriedades.
Além disso, o medo também é fator, já que, desde a época da colonização, a onça é associada a risco à vida humana. Os ataques do animal a pessoas são raros, mas esse temor justificava uma forma de "abate preventivo" da espécie.
Em relação à falta de presas para a onça, elas também desapareceram por causa da caça ilegal.
Na Mata Atlântica, as principais presas da onça-pintada são:
anta (Tapirus terrestris)
queixada (Tayassu pecari)
catitu (Dicotyles tajacu)
Não tem mais onça-pintada em Santa Catarina?
Apesar do cenário difícil para a onça-pintada em Santa Catarina, relatos de pegadas e avistagens têm sido mais recentemente relatadas, informou a bióloga do IMA Luthiana Carbonell, que atua na Gerência de Biodiversidade e Florestas do órgão.
As ameaças observadas à espécie, como a caça e abate, atropelamentos em rodovias e contato com animais domésticos, também podem ocorrer em Santa Catarina.
No estado, a onça-pintada está ameaçada de extinção na categoria criticamente em perigo, que é a de maior ameaça.
Os pesquisadores esperam que o trabalho possa contribuir para reflexões sobre como preservar e aumentar a população da espécie em Santa Catarina.
“Esse material pode ajudar a pensar áreas que, quem sabe, possam servir como refúgio para a volta da espécie no futuro, principalmente as matas da região Norte que fazem conexão com o Paraná, onde existe a população viável mais próxima”, avaliou Padilha.
Onça-pintada em Campo Erê, SC, em 1984
Reprodução/Família Goelzer
Maior felino das Américas
Confira algumas curiosidades sobre a espécie:
é o maior felino das Américas;
é o terceiro maior felino do mundo, atrás do tigre-siberiano (Panthera tigris) e do leão (Panthera leo);
é um predador;
faz um papel ecológico importante, de controle da população de presas;
historicamente, podia ser visto do Sul dos Estados Unidos até o Norte da Argentina;
atualmente o território da onça-pintada é metade do que já foi;
a população de onças-pintadas caiu 49% nos últimos 50 anos;
é uma espécie extinta nos Estados Unidos, El Salvador e Uruguai;
no Brasil, a espécie é presente em todos os biomas, com exceção dos Pampas (no Rio Grande do Sul);
no Brasil, a maior parte da população das onças-pintadas vive no Pantanal e na Amazônia.
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Homens com onça-pintada em Paraíso, SC, em 1955
Reprodução/Família Biazzi
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