Cresce o sofrimento emocional entre crianças e adolescentes e SC expõe deficiência no atendimento especializado

  • 21/03/2026
(Foto: Reprodução)
Laine Valgas ouve especialistas sobre sofrimento emocional entre crianças e adolescentes O número de crianças e adolescentes em sofrimento emocional cresce no Brasil: 1 em cada 5 enfrenta algum transtorno deste tipo — e Santa Catarina acompanha esse cenário com preocupação. Somente em 2025, cerca de 900 crianças e adolescentes precisaram de internação por questões de saúde mental no estado, segundo dados atualizados da Secretaria de Saúde. Mas, esse número pode ser apenas parte do problema, porque o Ministério Público de Santa Catarina (MPSC) aponta que ainda não há um levantamento completo da demanda por atendimento especializado — principalmente na área de psiquiatria pediátrica. Na prática, significa que o cenário pode ser ainda mais grave do que os dados já disponíveis indicam. ✅Clique e siga o canal do g1 SC no WhatsApp MP aponta falhas e cobra resposta do Estado Diante desse cenário, o MPSC ajuizou uma ação civil pública para que seja reconhecida a deficiência da Atenção Especializada em saúde mental no estado. A medida tem como foco principal a demora no acesso a consultas em psiquiatria pediátrica, especialmente na macrorregião da Grande Florianópolis. Segundo o órgão, a demanda é crescente — mas ainda não há dados consolidados sobre o número de crianças que aguardam atendimento. Ou seja, há uma demanda crescente — e uma estrutura que ainda não dá conta de responder. Uma geração que adoece mais cedo O cenário em Santa Catarina reflete uma tendência nacional. Pela primeira vez, o número de atendimentos em saúde mental entre crianças e adolescentes superou o de adultos no Brasil. Especialistas alertam que o sofrimento emocional está começando cada vez mais cedo — e muitas vezes se manifesta por meio do comportamento não compreendido pelos pais ou cuidadores. A maioria não tem conhecimento é que, em via de reagra, tudo começa dentro de casa - reflexo do ambiente onde são criados. “O comportamento é um pedido de ajuda” Ansiedade, irritação, dificuldade de atenção ou isolamento não são apenas traços de personalidade. Segundo a neurocientista Telma Abraão, especialista em trauma e saúde mental, esses sinais podem indicar que a criança está tentando expressar algo que ainda não consegue nomear. "Ela capta o ambiente ao redor o tempo todo. Ela sente antes mesmo de entender. Se o ambiente é tenso, sem validação, sem olho no olho e afeto, ela vai traduzir isso como ameaça e ter comportamentos reativos. Na verdade, a criança copia e cola o estado emocional dos adultos com quem tem maior ligação", explica. Ansiedade cresce entre crianças e adolescentes Canva O impacto do ambiente no cérebro A infância é o período mais sensível para o desenvolvimento do cérebro. Quando a criança cresce em um ambiente de tensão constante, o organismo entra em estado de alerta. "Famílias disfuncionais podem gerar o que chamamos de estresse tóxico, que provoca mudanças reais na arquitetura cerebral", afirma o psicólogo, neuroterapeuta e psicanalista especialista em traumas Gastão Ribeiro. Esse processo ativa áreas ligadas ao medo e libera hormônios do estresse, afetando diretamente funções como memória, atenção e aprendizagem. Consequências que vão além da infância Os efeitos desse tipo de ambiente tenso na infância, segundo a ciência, vão nos acompanhar durante toda a vida. "Não a toa vemos tantos adultos com dificuldade de concentração, alterações no sono, insegurança e irritabilidade, problemas de aprendizagem e de relacionamento. A infância é um chão que pisamos a vida inteira, como dizia a escritora Lia Luft", explica a pediatra e especialista em Neurociência do Trauma Infantil, Priscila Xavier. Do comportamento ao diagnóstico: o risco da medicalização Com o aumento dos casos de sofrimento emocional na infância, cresce também o uso de medicamentos para tratar sintomas como ansiedade, agitação e dificuldade de atenção. A medicação pode ser necessária em muitos casos. Mas especialistas alertam para o risco de transformar rapidamente comportamentos em diagnósticos — e diagnósticos em prescrição. “Muitas crianças que recebem diagnóstico de TDAH, na verdade, estão reagindo a experiências de estresse ou trauma que ainda não foram reconhecidas”, afirma o especialista em traumas Gastão Ribeiro. Segundo ele, o medicamento pode ajudar a reduzir o sintoma, mas não substitui a investigação da história e do contexto em que a criança vive. Experiências da infância e problemas de saúde 🧠 Um dos maiores estudos em saúde mental e saúde pública do mundo, conhecido como pesquisa das Experiências Adversas na Infância (ACEs), acompanhou mais de 17 mil pessoas nos Estados Unidos ao longo de vários anos para entender como situações vividas na infância influenciam a saúde na vida adulta. Os pesquisadores analisaram experiências como violência doméstica, negligência emocional, abuso, conflitos familiares constantes e ausência de vínculo seguro — e descobriram que quanto maior o número dessas experiências, maior o risco de desenvolver problemas de saúde ao longo da vida. Entre os desfechos mais associados estão depressão, ansiedade, dependência química, obesidade, diabetes, doenças cardiovasculares e até redução da expectativa de vida. A pesquisa mostrou ainda um padrão claro: o impacto é cumulativo. Ou seja, cada experiência adversa adicional aumenta significativamente o risco de adoecimento físico e emocional ao longo da vida. Ciência é clara: crianças não regulam sozinhas as próprias emoções Canva E o papel dos adultos? A ciência é clara: crianças não regulam sozinhas as próprias emoções. “Elas precisam do adulto como regulador emocional. É a partir dessa relação que aprendem a lidar com o que sentem”, enfatiza Telma Abraão. Cenário atual, porém, mostra que muitos adultos também estão emocionalmente sobrecarregados. Somente em 2025, mais de meio milhão de trabalhadores brasileiros precisaram se afastar do trabalho por transtornos mentais, segundo dados da Previdência Social. Ansiedade, depressão e síndrome de burnout lideram as causas. No mesmo período, aumentou também a procura por atendimento em saúde mental entre crianças e adolescentes — um movimento que especialistas observam com atenção. Para eles, os dados revelam uma conexão direta: quando os adultos adoecem emocionalmente, as crianças sentem. Porque a infância não acontece isoladamente. Ela acontece dentro das relações. E é por isso que especialistas defendem um caminho possível — e necessário: que os adultos aprendam a reconhecer as próprias emoções, buscar ajuda quando preciso e cuidar da própria saúde mental. Não como um peso. Mas como um presente. Porque quando um adulto se regula, a criança se sente segura. E, muitas vezes, o maior cuidado que um adulto pode oferecer a uma criança não é o controle — é o exemplo de autocuidado emocional. Mais do que tratar, é preciso compreender Para os especialistas, o principal desafio não é apenas ampliar o acesso ao tratamento, é entender o que está por trás dos sintomas. Pois, muitas vezes, o comportamento não é o problema. É o sinal. E talvez o maior desafio não esteja apenas em ampliar o acesso ao tratamento, mas em mudar a forma como a gente olha para a infância. Porque antes de um diagnóstico, antes de um remédio, existe uma criança tentando ser compreendida. E, muitas vezes, tudo o que ela precisa é de um adulto que que cuide do seu emocional, para então cuidar e regular. Problemas de saúde mental entre crianças e adolescentes preocupam especialistas Freepik VÍDEOS: mais assistidos do g1 SC nos últimos 7 dias

FONTE: https://g1.globo.com/sc/santa-catarina/noticia/2026/03/21/cresce-sofrimento-emocional-criancas-e-adolescentes-sc-deficiencia-atendimento.ghtml


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